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quarta-feira, 13 de junho de 2012

Pretérito

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Eu estive confrontando o fim, mas no fim não achei nada daquilo que todo mundo falava. Não achei nem quente, nem frio. Achei morno. Aquele calor de quando se está quase lá, mas ainda não se chegou a parte alguma. Esse deveria ser o melhor dos lugares, uma ponte entre o passado e o futuro, o Campos Elísios dentro do submundo que o teu coração se tornou. E não só o teu. Todos os corações se apagam vez ou outra. Essa é uma das graças da vida. Andar na rua dá a sensação de que todos os dias é Natal. Todo mundo passeando com seus corações ora incandescentes, ora opacos. E a vida ganha um pouco mais de cor e sombra.

Agora estou aqui, frente a frente com o fim e não sei o que dizer a ele. Não o vejo mau, o vejo como uma porta, como tantas outras portas que vão dar em algum lugar desconhecido. Seria normal, até bonito, se não doesse - mas se não doesse, não seria normal. Porque não é normal abrirem teu peito e arrancarem teu coração fora sem dor. Não é normal a apatia do papel pardo amassado jogado num canto do quarto escuro e vazio de alma.

Só sei que estou aqui, olhando para essa porta como quem atira uma taça na parede e, inutilmente, tenta parar o tempo até o instante em que ela estava inteira. Cada dia meu coração será apenas parte de um todo que nunca voltará a ser inteiro, porque ele tinha você e hoje só restou saudade. De você, de mim, de nós. Era.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Caminhos tortos

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Hoje eu acordei bem cedo e fui ver o mar,
sei que tudo tem um tempo pra passar.
Pelo menos é nisso em que
durmo acreditando.

Hoje estou tão cansado de tanto asfalto,
quero tirar as meias e aposentar os sapatos.
Quero correr até que o horizonte
encontre o mar.

Sei que todo o caos há de passar,
só rezo para ter alguém em quem me apoiar.
Leva o pranto e trás contigo
o meu sorriso.

Esse grito cego, pavor abafado,
mesmo isso não faz com que eu perca meu atalho.
Construí meu caminho e nele
vou até o fim.


domingo, 22 de agosto de 2010

Ao anoitecer

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Hoje ela acordou com vontade de levar sua vida para passear, mas o céu estava encoberto por uma estranha melancolia. Nenhuma das flores que ela regava com tanto empenho quis ver a luz do dia e hoje, nem o seu sorriso quis sair da toca. Resolveu banhar-se mas acabou se encobrindo de um lirismo lancinante. Não queria a melancolia, não queria o lirismo, não queria o lascivo. Buscava a tranquilidade de sua loucura como o sol beija o horizonte a cada entardecer. Quis ficar assim então: ela mesma. Sólida e atroz a qualquer mundo que possa existir lá fora. Só o que importava era o seu mundo. Era a imperatriz do seu reino de prata e nada poderia intervir. Fechou-se em copas e buscou pelo seu às de espadas, vermelho e destemido, bravo como Dartanhã, visionário como Dom Quixote. Ela corria e o vento girava cada vez mais rápido os moinhos de vento em sua cabeça. Quis sorrir e sorriu; quis chorar e chorou. E ao anoitecer caiu em um profundo sono. Novamente sonhava com o que tinha de melhor.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Sonho real

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Essa estrada é longa demais, possui meandros e bifurcações que apenas servem para confundir. Com a preocupação do destino e o cansaço da jornada adormeci e durante o sono me vi acordada. Só assim pude sonhar e apenas sonhando descobri o que é real. Vi a realidade escondida sob destroços de descrença e desespero. Nas ruínas pude contemplar a realidade abraçada com o sonho. Ele era lindo, colorido e despenteado. O sonho abraçou a realidade, tirou-a do caos e a levou para passear numa nuvem colorida. Eu não entendia - como poderia o sonho ser irmão da realidade? - e como não entendi, acreditei, e por acreditar voltei a ter fé em mim mesma. Gostei. Gostei tanto que me soltei dos grilhões e também fui brincar numa nuvem colorida e açucarada. Minha alma sorria e emanava cheiros e cores que todos conseguiam ver. Mas pelo meio do caminho tropecei em minhas próprias dúvidas e caí. Pedaços de questões não resolvidas puxavam a barra do meu vestido insistindo em ter uma solução. Interrogações emaranhavam-se pelos meus cabelos e gritavam tudo o que eu não tinha resposta. Cada vez que escorregava e adentrava no abismo do desconhecido eu era atacada por frases sem sujeito, diretos sem objetos, paráfrases sem donos e ironias sem humor. Caí, mas ao cair descobri que poderia voar e ao ruflar minhas asas consegui apartar para longe pequenos fragmentos de tristeza que corriam atrás de mim. Pousei e quando prostrei meus pés no chão me senti ainda mais no céu. Tocando o possível eu senti, desejei e possuí o intangível. Em meio a calmaria vi sair por dentre os arbustos os dois irmãos, agora ambos sorrindo. Eles me tomaram pela mão e me mostraram o caminho de volta, que eu segui sem saber se era sonho ou realidade. Coloquei a mão no bolso e encontrei pedaços multicoloridos de nuvens e então sorri contente. Finalmente havia parado de cair, voar é bem melhor.



sábado, 6 de março de 2010

Lembranças

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Eu lembro de tudo. Foi intenso, mágico, quase surreal. Posso recordar o brilho dos teus olhos e toda a verdade que insistes em negar com palavras. Elas não nos são mais necessárias pois juntos, cada fibra do nosso corpo se mantém conectada. Palavras são inúteis, mas ainda sim insistimos em usá-las. E em meio ao maior momento de prazer surge, quase que simultaneamente, o balbuciar da mesma frase: "Eu te amo!".

Cada músculo cansado repousa um sobre o outro enquanto você me olha com uma cumplicidade, quase infantil, de quem sabe que fez uma travessura. Olhares trocados, palavras guardadas, tato, suor, pele, saliva, alma. Ah, alma! Quem dera ter mais alma para dar! De alguma forma você conseguiu me libertar da dor e agora, só ao seu lado consigo ser eu mesma.

Em meio a um rompante surge um som incômodo que me faz revirar na cama. Olho pro lado e vejo o vazio, frio e surge um gosto amargo de fel nos lábios. Hoje eu acordei sentindo falta. Eu lembro de tudo. Foi intenso, mágico, quase surreal. Pena que não aconteceu.

domingo, 4 de outubro de 2009

Redenção

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Ele está sentado naquela poltrona há mais ou menos três horas, inerte. Pernas largadas, quase deitado, seu corpo está tão relaxado que não ousara sequer se mover. Há três horas Ricardo olha para uma faca na mesa, puramente seduzido pelo brilho da lâmina. Eles estão em uma conversa silenciosa há horas, onde somente um lado fala.

“Venha Ricardo, deixe-me provar do teu sangue impuro. Farei com que todas as suas dores desapareçam. Prometo que você irá se sentir bem”. 

Ele anda perturbado com as vozes, não sabe o que fazer para calá-las e não sabe como suplantar essa dor. Por vezes outras lâminas sentiram o sabor da sua pele, um prazer incrível, porém momentâneo. As maiores cicatrizes se escondem no porão da sua alma, que no momento parece ter abandonado aquele corpo. Todos já desistiram, inclusive ela, então por que ele também não pode desistir? Sim, é inútil, nada há para ser salvo, nada há para ser lembrado.

Esse é um momento único, somente ele, a poltrona e a faca – quatro horas – quanto tempo passou? A dúvida ainda paira em sua cabeça repleta de pensamentos lá não muito ortodoxos. Será que a solução para todo o sofrimento é pular fora da ponte da vida? Quisera ele que seu espírito pudesse descansar em paz, mas os fantasmas que um dia aparentemente se afastaram ainda lhe perturbam as ideias. Cada fibra do seu ser exprime um som quase gutural, essa dor constante corrói a sua carne deixando marcas por todo o seu rosto e pulsos.

No chão algumas caixas jogadas, remédios usados antes para aliviar a sua dor de sentir, mas que agora não fazem nenhum efeito. Ricardo parece ter entrado num mundo paralelo de dor e sombras, onde nada mais importa além de livrar-se do sofrimento. Eis que pelas asas do mensageiro dos ventos vem a sua redenção, tão linda que chega a ofuscar-lhe a visão, pousando levemente sobre o seu colo. Seus membros estão dormentes mas ainda assim consegue forças para alcançar a paz derradeira. Deixou para trás apenas um rastro de sangue e lágrimas.