segunda-feira, 15 de agosto de 2011

She

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Ela chegou sobressaltada, correu até o banheiro, tateou a parede à procura do interruptor. Encarou-se no espelho e não reconheceu quem viu. Aquela carcaça, aquele rosto já não era mais dela. Desenhou os contornos do rosto com o indicador. Em qualquer outro dia ela diria que estava feia, gorda ou, na melhor das hipóteses, apresentável. Não que de fato não fosse bonita, mas qualquer um que olhasse mais atentamente poderia jurar que ela esforçava-se demais para não ser.

Abaixou a cabeça e apoiou-se na beirada da pia, lavou o rosto e fitou o espelho novamente. Quem era essa pessoa? Quem era essa mulher que tomara seu corpo? Mulher? Ainda ontem era apenas uma menina com suas bonecas. Menina. Criança. Mulher. Ela não enquadrava-se em nenhuma categoria. Na verdade ela parecia um espírito livre que tomou para si um corpo desavisado. Lavou o rosto com a água gelada da torneira e a deixou aberta, algo ainda precisava ligá-la a realidade.

Cambaleou até o quarto e encarou a própria cama como quem procura algo fora do lugar. Não encontrou. Tirou toda a roupa e jogou-se na cama em fúria e sentimento enquanto desenhava animais e seres imaginários no teto. A luz que adentrava pela janela dava um toque soturno ao ambiente. Ela cobriu-se com o lençol de seda e o frio do tecido se contrapôs ao calor da sua pele. Abraçada a si, ela desejou ser dela novamente, desejou ter controle, poder e fúria. Ela abraçava-se na vã tentativa de voltar a ser quem era e então permitiu-se chorar. Chorou e percebeu: ela não era mais ela, agora só era ela estando nele.


8 ou 80

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E sete meses depois eu resolvo finalmente tirar o pó daqui e... recomeçar. A última postagem data de 14 de janeiro e durante esse tempo todo me perguntei se valia "reacender" essa chama. Daí me peguei confusa, triste e sufocada e percebi que, o que não era dito estava me matando. Cada palavra que não via a luz do dia era engolida a seco causando o que eu acabei de apelidar de indigestão criativa (rs). Não importa se é real ou abstrato, moralista ou abominável, se antes o excesso de crítica me impedia de dizer, agora vamos direto ao ponto estando certo ou execravelmente errado. Engoli demais, agora eu quero vomitar. Bom dia, boa tarde, boa noite, você está no Des-consertando e pela minha lei aqui é 8 ou 80. Sem meias palavras, sem meias verdades, apenas o meio incompreensível. Divirta-se!

8 ou 80 - Pitty
Todo mundo tem segredo
Que não conta nem pra si mesmo
Todo mundo tem receio
Do que vê diante do espelho.

Eu só quero o começo
Me entedia lidar com o meio
Quero muito, tenho apego
Já não quero e só resta desprezo.

Nem sempre ando entre os meus iguais
Nem sempre faço coisas legais
Me dou bem com os inocentes
Mas com os culpados me divirto mais.


sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Das expectativas

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Todo início de ano é a mesma coisa: pegamos a lista do Ano Novo, damos uma olhada, respiramos fundo e pensamos ansiosos por onde começar. Dia 1º de janeiro é sempre um dia vazio. Sempre. Quando voltamos pra casa descalços, com o par de sapatos nas mãos e com o olhar perdido no horizonte é que somos mais vazios. Não há nenhum outro dia no ano que nos dê mais esperança do que o dia 1º. É como sair da prisão com a ficha limpa, sem um passado para se preocupar, apenas com um futuro para preencher. É o melhor dia do ano na minha humilde opinião justamente porque você sente que pode tudo e ainda tem essa força sensacional que te faz acreditar sempre no melhor (seria a fada do Ano Novo? rs). É como ganhar uma nova folha em branco para criar e a arte que você vai colocar nela só depende de você. Pode ser qualquer coisa ou você pode simplesmente amassá-la e jogá-la no lixo, não importa, ninguém pode tirar uma linha sequer da sua história sem a sua permissão. O que vamos criar e o que os outros criarão é a grande surpresa porque nem mesmo a nossa arte pode ser prevista. São inúmeras possíbilidades que podem ser aproveitadas igualmente de inúmeras formas. A "incontabilidade" das possibilidades é que dá o charme ao processo e aumenta a ansiedade. Dia 1º é sempre um dia vazio mas janeiro carrega sempre nossas maiores expectativas. Então nesse caso, que tudo dê certo.