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segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Sobre o 99

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"Qualquer um que queira achar o seu caminho neste mundo deve admitir que não faz ideia de onde está..."






(Durante uma conversa sobre amenidades)


- Você acha que o 100 existe?

- O 100 é a utopia da vida. É aquele desejo que alimentamos só por desejarmos alguma coisa maior do que o presente. Nosso desejo em si é maior do que qualquer coisa que possa existir. Essas pequenas vontades são as maiores traidoras de nossas conquistas. Todo esse anseio no final se torna o nosso maior carrasco. Nada há de completo na vida. O inconformismo entre o copo meio cheio ou meio vazio faz a gente lutar contra moinhos de vento. Encaramos nossos medos transformados em loucura e lutamos com o vento tal qual Dom Quixote. O 100 não existe porque não há completude no mundo. O fim da vida não é o fim do livro, é apenas a certeza de que ele nunca mais será aberto. É o quase. Sempre uma vírgula, nunca um ponto final. Por isso,  menina, lhe digo: o 100 é um lugar que não existe. A felicidade já está no 99. Então pare de tentar se completar e seja feliz com seus pedaços.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Portas batidas

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Quer ir, vá. Eu não vou te segurar.
Vá, mas deixe tudo o que é meu.
Devolva o Doyle, os Machados e Prousts.
Sabe aquele site incrível? Ele é meu, nunca foi seu.
Quero de volta todos os cds, você nunca gostou mesmo de Rock.
Cadê aquela camisa dos Rolling Stones?
Você nunca se sentiu à vontade com Chico ou Caetano.
Por que agora vive cantarolando Los Hermanos?
Vai, mas deixa tudo o que é meu.
Não quero mais que você veja Almodóvar, não quero ouvir críticas aos Cohen ou palmas para Eastwood.
A verdade é que você nunca soube apreciá-los.
Esquece, deixa pra lá.
Deixa por aqui. Por aqui ou por lá.
E deixa esse moleskine também. Agora você escreve?
Agora você entende de arte? Tá tentando ser uma pessoa melhor?
Vai, mas deixa tudo o que é meu.
Arranca fora esse sorriso, porque ele também não é teu.
Veste a carapuça do mau humor, esse sim foi feito pra você.
E aqueles péssimos hábitos? Estranho pensar que o que antes me fazia rir, hoje me enoja.
Estranho nada, pensando bem é até normal. Ou seria banal?
Vamos, quero de volta todas as manhãs acinzentadas e noites estreladas!
Guardei o pôr-do-sol numa caixinha e te dei, agora todos os meus dias são nublados.
E o que ganhei com isso?
Pode sair por essa porta, mas deixa em cima da mesa todos os sorrisos que eu te dei.
Todos os abraços, todos os beijos.
Sabe aquelas conversas, as palavras de apoio, as declarações?
Coloca tudo numa bandeja que mais tarde eu recolho.
Eu quero o que é meu, nada disso é teu.
É tudo meu, faz parte do meu eu e eu não quero nada meu que também seja teu.
Deixa tudo e vai, bate a porta e joga fora as chaves,
porque no meu teto você não dorme, no meu chão você não voa, na minha vida você não está.
Pelo menos não mais.




quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Construção

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Tô me reconstruindo, me remoldando. Tô catando cada pedacinho de mim e juntando pra fazer o meu inteiro, recolhendo cada caco de sonho estilhaçado e fazendo um mosaico de esperança e luz, cor e som, onde tudo pode ser do jeito que eu quiser, como eu quiser.

Cansei de varrer pra debaixo do tapete todos aqueles problemas intermináveis. Acordei numa manhã de domingo e o médico ordenou:

“Pare de varrer tudo para debaixo do tapete! Isso faz mal, não é saudável. Junta tudo e joga ao vento teus problemas, depois disso toma vitamina C e decerto há de passar”.

Tô juntando cada gota de chuva e construindo meu mar, assim, de mansinho. Não quero o que eu era, aquilo também não era inteiro. Quero me moldar entre pedaços de estrelas, estilhaços de desejos e um punhado de esperanças. Tô me reformando, tô subindo as paredes do meu castelo novamente e dando nova cara aos cômodos. Agora ele não terá muros, terá grandes e espaçosas pontes. Não quero mais separar, quero unir. Cansei de dividir lágrimas, quero multiplicar gargalhadas daquelas de doer a barriga.

As unhas, antes longas e vermelhas, agora por um bom tempo ficarão curtas e cruas. Essa cara que já não é minha vou levando até voltar a ser eu (será que algum dia já fui eu?). Meus pés que ainda vacilam porque ainda não sabem para onde devem ir, agora passam um tempo descalços ao sabor da terra. 

Ando escolhendo outras músicas, outros gostos e dos gostos pela vida. Tenho mudado palavras de melancolia por frases de amor porque, no final, o amor é a única coisa que importa, nem que seja por si mesmo. Tenho trocado de bocas e de corpos porque ainda não sei em quem me encaixo, daí vou me colando, espremendo e juntando até encontrar e ouvir o click. Tenho querido outras coisas, outras pessoas, outras vidas e das vidas quero extrair mais vida e propagar a vida até que a minha própria se finde.

Quero o amor, quero o mar, o além mar, mas tô só me reconstruindo, devagarzinho, assim, sem pressa. E um dia, um dia eu voltarei a ser eu, em virtude e plenitude, sem limitação. Mas por enquanto, por enquanto ainda é um tijolo de cada vez.


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Exageros

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Eu não caibo mais em mim, de tudo o que eu tentei ser, só restou a vontade. Essa tentativa vã de ser algo melhor do que se é agora, não que o melhor fosse mesmo o mais esperado, mas é apenas diferente. Olho-me no espelho e vejo arestas mal aparadas, onde cada ponta solta procura a carne próxima para furar, rasgar e gritar quão frouxo na verdade são os sentimentos cá dentro.

Encaro meu rosto e não acredito que a obra completa, na verdade, não passe de um rascunho mal acabado do que eu poderia ser, mas por acasos indigestos do destino, ainda não sou. E então fico me perguntando: um dia serei? Poderei ser uma obra acabada ao invés de um esboço meio apagado pelo tempo? Tenho medo de nunca ser e, por não ser, ficar presa ao enfadonho e nefasto era. Tenho a angústia das almas incompreendidas que vagam pelo mundo em busca de amor. Tenho a ânsia dos que buscam aquilo que nunca tiveram. E por esse nunca ter é que eu saberei ser porque, ao contrário dos outros, eu não caibo em mim. E das fronteiras inexistentes do ser eu me transbordo: em sentimento.